Emprego e Meios de Subsistência em Moçambique
Emprego e Meios de Subsistência em Moçambique: A Realidade Por Trás dos Números

Quando estudamos a economia de um país, é fácil ficarmos fascinados pelos grandes números, pelos investimentos de milhares de milhões de dólares, pelas estatísticas impressionantes de crescimento do PIB. Mas se queremos verdadeiramente compreender como uma sociedade funciona, precisamos fazer uma pergunta diferente e mais fundamental: como é que as pessoas realmente ganham a vida? Como é que alimentam as suas famílias? Que tipo de trabalho fazem dia após dia? Estas perguntas sobre emprego e meios de subsistência levam-nos ao coração da realidade económica vivida pela população, em contraste com as abstrações macroeconómicas que dominam as manchetes.
Em Moçambique, quando fazemos estas perguntas, descobrimos algo profundamente revelador que já tocámos anteriormente mas que agora precisam compreender com ainda maior clareza: existe uma desconexão dramática entre onde a riqueza é gerada e onde as pessoas encontram trabalho. Esta é a dualidade fundamental da economia moçambicana vista através da lente do emprego. De um lado, temos megaprojetos intensivos em capital, investimentos gigantescos em gás natural, carvão e alumínio que geram a maior parte das receitas de exportação do país e aparecem de forma proeminente em relatórios económicos e discursos políticos. Do outro lado, temos a economia real para a vasta maioria da população, que continua firmemente ancorada na agricultura e no setor informal, sustentando entre setenta e noventa por cento da força de trabalho em todo o país.
Para compreenderem verdadeiramente o que isto significa, imaginem duas paisagens económicas paralelas. Na primeira paisagem, vemos instalações de gás natural ultramodernas ao largo de Cabo Delgado, operadas por empresas multinacionais com tecnologia de ponta, onde algumas centenas ou talvez alguns milhares de trabalhadores altamente especializados, muitos deles trazidos de fora de Moçambique, operam equipamentos que valem milhões de dólares. Vemos minas de carvão a céu aberto em Tete com escavadoras gigantescas e comboios especiais que transportam milhões de toneladas de mineral. Vemos a fundição de alumínio Mozal em Maputo, uma catedral industrial onde fornos atingem temperaturas de mais de mil graus Celsius para transformar bauxite em metal.
Na segunda paisagem, vemos algo completamente diferente mas muito mais representativo da experiência económica da maioria dos moçambicanos. Vemos um agricultor no interior do Niassa cavando com uma enxada manual num pequeno campo de feijão e milho, usando as mesmas técnicas que o seu avô usava, sem tratores, sem fertilizantes químicos, sem sistemas de irrigação. Vemos uma mulher em Nampula sentada no mercado informal, vendendo castanha de caju que ela própria colheu e processou, competindo com dezenas de outras vendedoras, ganhando talvez alguns meticais por dia. Vemos um jovem em Gaza a conduzir um chapas, aqueles mini-autocarros que são a espinha dorsal do transporte público informal em Moçambique, transportando passageiros em estradas esburacadas, vivendo de viagem em viagem sem qualquer contrato formal de emprego ou segurança social.
Estas duas paisagens coexistem dentro do mesmo país, mas as ligações entre elas são surpreendentemente fracas. Os megaprojetos não empregam as massas que trabalham na agricultura e no setor informal, e o dinheiro que geram não se distribui de forma ampla pela economia de formas que criem empregos para essas massas. Esta é a realidade fundamental do emprego e dos meios de subsistência em Moçambique que precisam compreender antes de explorarmos os detalhes de cada região. Vamos agora viajar de norte a sul, examinando como as pessoas realmente ganham a vida em cada província.
O Norte: Subsistência, Culturas de Rendimento e Indústria Emergente

Quando analisamos os padrões de emprego e meios de subsistência nas províncias do norte de Moçambique, o que encontramos são economias esmagadoramente agrárias e informais, apesar da presença de recursos de alto valor que atraem investimento internacional. Esta contradição entre a riqueza dos recursos e a pobreza dos meios de subsistência da população é particularmente acentuada aqui.
Na província do Niassa, a agricultura é o empregador absolutamente dominante, absorvendo mais de oitenta por cento da força de trabalho. Mas quando dizemos agricultura, precisam compreender exatamente o que isto significa na prática para a maioria das pessoas. Não estamos a falar de agricultura mecanizada e comercial como aquela que vocês podem ver em vídeos de fazendas nos Estados Unidos ou Europa, com tratores gigantescos, colheitadeiras automatizadas e sistemas sofisticados de irrigação controlados por computador. Estamos a falar de agricultura de pequena escala, muitas vezes de subsistência ou semisubsistência, onde famílias cultivam parcelas de terra que medem tipicamente entre meio hectare e dois hectares.
Imaginem acordar antes do amanhecer numa aldeia rural do Niassa. O dia de trabalho começa cedo porque o sol tropical torna-se opressivamente quente ao meio-dia. Com enxadas manuais, porque a maioria das famílias não pode pagar tratores ou mesmo arados puxados por animais, vocês e a vossa família cavam a terra, plantam sementes de feijão, milho ou soja, e depois passam meses a cuidar das culturas, arrancando ervas daninhas manualmente, protegendo contra pragas como podem, e esperando que as chuvas venham no momento certo e na quantidade certa. Se tudo correr bem, na época da colheita, vocês recolhem o suficiente para alimentar a família durante o ano seguinte, com talvez um pequeno excedente que podem vender no mercado local para comprar sal, sabão, querosene para lâmpadas, e outros bens essenciais que não podem produzir vocês mesmos.
Este é o meio de subsistência da vasta maioria das pessoas no Niassa. Não é romanticamente pastoral nem desesperadamente miserável, mas algo intermédio, uma vida de trabalho árduo físico com recompensas modestas e vulnerabilidade constante a choques climáticos, pragas, doenças e flutuações de preços de mercado. Para muitas famílias, a estratégia é diversificar, combinando culturas alimentares para subsistência com culturas de rendimento como tabaco ou algodão que podem ser vendidas por dinheiro. O tabaco, apesar das suas implicações para a saúde pública, oferece um caminho para rendimento monetário para famílias rurais porque existem empresas de tabaco dispostas a comprar a colheita, muitas vezes através de esquemas de agricultura contratual onde fornecem sementes e assistência técnica em troca de compromissos de venda.
O setor florestal do Niassa oferece um tipo diferente de emprego, trabalho assalariado nas plantações de pinheiro e eucalipto e nas operações de processamento de madeira e celulose. Este é trabalho formal, com salários pagos regularmente, embora frequentemente baixos. Os trabalhadores florestais podem estar envolvidos no plantio de mudas, na manutenção das plantações, no corte de árvores maduras, ou no transporte e processamento da madeira. Este tipo de emprego oferece mais segurança do que a agricultura de subsistência mas também pode envolver condições de trabalho difíceis, com longas horas, trabalho fisicamente exigente, e exposição a riscos ocupacionais.
A província de Cabo Delgado apresenta talvez o contraste mais dramático de todo o país entre a natureza dos recursos e a natureza do emprego. Aqui, temos alguns dos maiores investimentos de infraestrutura energética em qualquer lugar de África, projetos de GNL que representam dezenas de milhares de milhões de dólares. Temos minas que extraem rubis que valem milhares de dólares por quilate e grafite que alimentará a revolução dos veículos elétricos. E no entanto, para a população geral, aproximadamente oitenta por cento das pessoas dependem de pesca de subsistência e agricultura para sobreviver.
Precisam compreender porque é que isto acontece. Os projetos de gás natural ao largo são operações extremamente intensivas em capital mas não em trabalho. Uma plataforma de gás pode custar mil milhões de dólares para construir mas emprega talvez apenas algumas centenas de pessoas para operar. E essas centenas de pessoas precisam de competências altamente especializadas, engenheiros de petróleo e gás, técnicos de instrumentação, soldadores certificados para trabalho submarino, operadores de equipamento complexo. Estas competências não existem em abundância na população local de Cabo Delgado, onde a maioria das pessoas nunca teve oportunidade de frequentar educação secundária, muito menos formação técnica avançada. Então as empresas trazem trabalhadores de outras partes de Moçambique ou de outros países completamente, pagando-lhes salários que podem ser muito altos pelos padrões moçambicanos mas que não ficam nas comunidades locais porque estes trabalhadores gastam o seu dinheiro noutros lugares ou enviam-no para as suas famílias noutras regiões.
Entretanto, a vasta maioria da população de Cabo Delgado continua a viver como viveu durante gerações. Ao longo da costa, famílias pescam usando embarcações pequenas e simples, muitas vezes apenas canoas escavadas de troncos de árvores ou dhows tradicionais de madeira com velas triangulares. Saem ao mar antes do amanhecer, lançam redes ou linhas, e esperam apanhar peixe suficiente para comer e vender. Alguns dias são bons, outros menos. Quando os ciclones se aproximam, não podem pescar de todo. No interior, a agricultura segue padrões semelhantes aos do Niassa, pequenas parcelas cultivadas manualmente, principalmente para subsistência. As minas de rubis e grafite empregam mais pessoas locais do que os projetos de gás, mas ainda assim os números são modestos comparados com a população total da província, e muitos dos empregos são de baixa qualificação e mal pagos, como segurança ou trabalho manual básico.
A província de Nampula, sendo o peso pesado demográfico do norte com a maior população de qualquer província moçambicana, apresenta padrões de emprego que refletem a sua posição como centro comercial da região. Os meios de subsistência aqui estão intimamente ligados à agricultura de exportação, especialmente castanha de caju e algodão, e ao setor logístico que gira em torno do Corredor e Porto de Nacala.
A produção de castanha de caju em Nampula envolve milhões de pessoas ao longo de toda a cadeia de valor. Na base estão os pequenos agricultores que possuem ou cuidam de algumas dezenas ou centenas de cajueiros. Durante a época da colheita, que vai aproximadamente de outubro a dezembro, famílias inteiras mobilizam-se para apanhar as castanhas que caem das árvores. Este é trabalho intensivo porque as castanhas precisam ser apanhadas rapidamente após cair, antes que estraguem com a humidade ou sejam comidas por animais. Depois vem o processamento primário, que tradicionalmente acontecia em fábricas de grande escala mas que nos últimos anos tem se descentralizado para mini-fábricas e até processamento ao nível familiar. O processamento envolve torrar as castanhas para quebrar a casca externa dura e tóxica, depois remover cuidadosamente esta casca sem danificar a noz branca interior. Este trabalho é extremamente intensivo em mão de obra e tradicionalmente tem sido feito principalmente por mulheres.
O algodão segue um padrão diferente. A maioria dos cultivadores de algodão em Nampula trabalha sob esquemas de agricultura contratual com empresas algodoeiras. No início da estação, a empresa fornece sementes, e às vezes fertilizantes e pesticidas, aos agricultores. Os agricultores plantam e cuidam do algodão nas suas parcelas. Na colheita, que também é intensiva em trabalho porque as cápsulas de algodão precisam ser apanhadas manualmente, os agricultores vendem o algodão bruto de volta à empresa a um preço pré-acordado. A empresa então transporta o algodão para fábricas de descaroçamento onde as fibras são separadas das sementes, e depois processa e exporta o algodão. Este sistema cria emprego e rendimento para dezenas de milhares de famílias, mas também pode criar dependências problemáticas, especialmente quando os preços oferecidos pelas empresas são baixos ou quando os agricultores ficam endividados devido aos inputs fornecidos.
O setor logístico em torno do Porto de Nacala oferece um tipo diferente de emprego, mais formal e urbano. O porto emprega diretamente milhares de pessoas como estivadores que carregam e descarregam navios, operadores de guindastes e outras máquinas, pessoal administrativo, inspetores, seguranças e muitos outros. Mas os efeitos multiplicadores estendem-se muito além do porto. Os camiões que transportam contentores entre o porto e o interior precisam de motoristas, e esses motoristas precisam de lugares para comer e dormir ao longo das rotas, criando emprego em restaurantes e pensões. As mercadorias em trânsito precisam de ser desembaraçadas pelas alfândegas, criando trabalho para despachantes. Contentores precisam de ser reparados, criando oficinas especializadas. Esta cadeia de serviços associados ao setor logístico cria uma base económica urbana significativa.
Mas mesmo em Nampula, com a sua agricultura comercial e setor logístico, o setor informal continua vital, empregando até noventa por cento da força de trabalho ativa. O setor informal em contexto urbano significa o comércio de rua, as bancas de mercado, os vendedores ambulantes, os chapas e seus motoristas e cobradores, os pequenos reparadores de bicicletas e telefones, as vendedoras de comida preparada, os lavadores de carros informais, e mil outras atividades económicas que acontecem sem licenças formais, sem contratos escritos, sem impostos pagos, sem segurança social. Para a vasta maioria dos habitantes urbanos de Nampula, este setor informal não é uma escolha mas uma necessidade, porque simplesmente não existem empregos formais suficientes para absorver todas as pessoas que precisam trabalhar.
O Centro: Plantações, Minas e Corredores

As províncias centrais de Moçambique oferecem oportunidades de trabalho assalariado mais diversificadas do que o norte, principalmente através de fazendas agrícolas organizadas, operações mineiras e corredores de transporte, embora a agricultura de subsistência continue a ser a base dos meios de subsistência para a maioria.
Na província da Zambézia, os padrões de emprego estão historicamente ligados às plantações de chá nas terras altas de Gurué e à produção de coco ao longo da costa. As plantações de chá representam um tipo específico de emprego agrícola assalariado que é bastante diferente da agricultura de pequena escala que discutimos anteriormente. Numa plantação, os trabalhadores não cultivam as suas próprias parcelas mas trabalham em terras pertencentes a uma empresa, realizando tarefas específicas em troca de salários diários ou mensais.
O trabalho numa plantação de chá é fisicamente exigente e altamente repetitivo. A principal tarefa é a colheita das folhas de chá, que precisa acontecer continuamente durante a estação de crescimento porque apenas as folhas jovens e tenras produzem chá de qualidade. Os apanhadores de chá, tradicionalmente mulheres, movem-se ao longo das fileiras de arbustos de chá com cestos às costas, usando as suas mãos para beliscar as folhas mais tenras do topo de cada arbusto. É trabalho que requer destreza e velocidade, porque os trabalhadores são frequentemente pagos por quantidade colhida. Passar o dia inteiro curvado sobre os arbustos, sob o sol ou chuva, enchendo cesto após cesto com folhas de chá, não é trabalho fácil. Historicamente, as condições de trabalho e os salários nas plantações de chá da Zambézia têm sido problemáticos, um legado da era colonial onde estas plantações operavam quase como feudos, com trabalhadores vivendo em dependência quase total dos empregadores.
A produção de coco ao longo da costa da Zambézia segue padrões mais próximos da agricultura de pequena escala, com famílias que possuem ou cuidam de pomares de coqueiros. A colheita de cocos, que precisa acontecer com coqueiros que podem ter quinze ou vinte metros de altura, é trabalho especializado e perigoso. Os colhedores sobem aos coqueiros usando técnicas tradicionais ou equipamento básico, cortam os cachos de cocos, e descem. O processamento de cocos em copra, que é a polpa branca seca, é intensivo em trabalho, envolvendo partir os cocos, extrair a polpa, e secá-la ao sol ou em fornos.
A exploração emergente de areias pesadas em distritos como Chinde está a começar a alterar os meios de subsistência locais, introduzindo trabalho assalariado mineiro numa região tradicionalmente dependente de pesca e agricultura. Mas este é ainda um processo em desenvolvimento, e a escala de emprego direto continua modesta.
A província de Tete apresenta um padrão de emprego dual que já discutimos em termos setoriais mas que vale a pena examinar mais de perto através da lente dos meios de subsistência. A mineração de carvão em Moatize domina o PIB provincial mas emprega uma força de trabalho industrial específica que é relativamente pequena. As minas de carvão modernas são operações altamente mecanizadas. As enormes escavadoras que removem a sobrecarga e escavam o carvão são operadas por trabalhadores qualificados. Os comboios gigantes que transportam o carvão requerem maquinistas, técnicos de manutenção, pessoal logístico. As operações mineiras também precisam de engenheiros, geólogos, técnicos de segurança, pessoal administrativo e muitos outros profissionais.
Estes empregos mineiros pagam salários que são altos pelos padrões moçambicanos, muitas vezes várias vezes o salário médio nacional. Para as pessoas que conseguem estes empregos, representam uma oportunidade genuína de mobilidade económica ascendente, uma forma de entrar na classe média. Mas aqui está o problema crítico: o número total destes empregos, mesmo numa operação mineira massiva, é limitado. Uma mina que produz milhões de toneladas de carvão por ano pode empregar alguns milhares de pessoas diretamente. Isto é significativo, mas numa província com uma população de mais de dois milhões, deixa a vasta maioria fora do setor mineiro formal.
A população mais ampla de Tete depende da agricultura, cultivando milho, mandioca, sorgo e culturas de rendimento como tabaco nas suas pequenas parcelas, e da economia comercial informal que surge em torno do transporte de bens através da província. As cidades e vilas ao longo das rotas de transporte tornam-se centros de comércio, onde vendedores informais vendem comida, bebidas, produtos básicos e serviços aos motoristas de camiões e outros viajantes. Esta economia de serviços associada ao transporte cria meios de subsistência para milhares de pessoas mas é precária e informal.
A província de Manica oferece meios de subsistência mais diversificados do que muitas outras províncias, variando desde agricultura comercial nas terras altas até mineração de ouro artesanal e industrial. A agricultura comercial de exportação em Manica, focada em culturas como macadâmia, abacates, citrinos e tabaco, cria diferentes tipos de emprego ao longo das cadeias de valor. Nas grandes plantações de macadâmia, existem empregos assalariados em atividades como poda de árvores, aplicação de fertilizantes e pesticidas, colheita de nozes, e processamento primário. Mas Manica também tem muita agricultura contratual onde pequenos produtores cultivam estas culturas de alto valor nas suas próprias terras e vendem para empresas processadoras.
A mineração de ouro em Manica apresenta um contraste fascinante entre operações industriais formais e mineração artesanal em pequena escala. A mineração artesanal de ouro atrai milhares de pessoas, muitas vezes jovens homens, que trabalham individualmente ou em pequenos grupos procurando ouro em rios ou cavando poços rasos em áreas onde há indícios de mineralização. Este é trabalho extremamente árduo, muitas vezes perigoso devido a desabamentos de poços mal suportados, e com retornos incertos. Alguns dias encontram ouro suficiente para vender e ganhar um rendimento razoável, outros dias saem de mãos vazias. Não há salários garantidos, não há segurança social, não há equipamento de proteção. Mas para muitos, especialmente em áreas rurais com poucas outras oportunidades de emprego, a mineração artesanal representa uma das poucas formas de potencialmente ganhar dinheiro significativo num curto período de tempo.
O Corredor da Beira que atravessa Manica também suporta empregos relacionados com serviços ao longo da estrada, desde restaurantes e pensões até oficinas de reparação de veículos e postos de combustível. Estas são principalmente pequenas empresas informais ou semi-formais que dependem do fluxo constante de tráfego comercial ao longo do corredor.
A província de Sofala funciona como um grande centro de emprego para logística através do Porto de Beira. O trabalho portuário tem características específicas que vale a pena compreender. Os estivadores que carregam e descarregam navios fazem trabalho fisicamente exigente, movendo cargas pesadas, trabalhando em turnos que podem incluir noite e fins de semana porque os navios operam vinte e quatro horas por dia. Tradicionalmente, o trabalho portuário tem sido relativamente bem pago comparado com outras formas de trabalho manual porque é fisicamente exigente, porque requer alguma especialização, e porque historicamente os trabalhadores portuários foram bem organizados em sindicatos que negociaram salários melhores.
Mas o trabalho portuário também está a mudar com a modernização. A introdução de contentores e equipamento de manuseamento mecanizado significa que menos trabalhadores manuais são necessários, embora operadores de máquinas qualificados tornem-se mais importantes. Esta tensão entre criação e destruição de emprego através da modernização é algo que vocês verão repetidamente no estudo do desenvolvimento económico.
As grandes plantações de açúcar em Sofala, especialmente em Mafambisse e Marromeu, proporcionam emprego formal significativo. Uma plantação de açúcar é uma operação integrada que envolve cultivo de vastas extensões de cana-de-açúcar, colheita, transporte da cana para a fábrica, e processamento em açúcar refinado. Na fase agrícola, trabalhadores plantam mudas de cana, aplicam fertilizantes e herbicidas, mantêm sistemas de irrigação, e eventualmente colhem a cana. A colheita de cana-de-açúcar é trabalho brutalmente exigente, especialmente quando feita manualmente com facões, cortando as canas grossas perto da base sob o calor tropical. Algumas plantações modernizaram com colheitadeiras mecânicas, mas muita colheita ainda é manual. Na fábrica, outros trabalhadores operam maquinaria que esmaga a cana, ferve o sumo, e cristaliza o açúcar. Estes empregos industriais requerem competências técnicas e são geralmente melhor pagos do que o trabalho agrícola no campo.
A pesca industrial de camarão no Banco de Sofala cria empregos tanto a bordo dos barcos de pesca quanto em instalações de processamento em terra. Os pescadores trabalham em turnos longos e difíceis no mar, operando as redes de arrasto e processando as capturas a bordo. Em terra, trabalhadores, frequentemente mulheres, classificam, limpam, embalam e congelam os camarões para exportação. Este é trabalho repetitivo e frio, passado em instalações frigoríficas, mas proporciona rendimento regular para milhares de famílias.
O Sul: Serviços, Indústria e Turismo

As províncias do sul de Moçambique apresentam a maior concentração de emprego formal em serviços e indústria, embora a agricultura continue crítica para a segurança alimentar e como meio de subsistência de base para muitas famílias.
A província de Inhambane oferece meios de subsistência únicos devido ao forte setor turístico e à indústria de gás. O turismo em destinos como Bazaruto, Tofo e Vilankulo cria uma gama diversificada de empregos em hospitalidade. Nos resorts de luxo, existem posições que vão desde gestores e chefs internacionalmente treinados até recepcionistas, empregados de mesa, empregadas de limpeza, jardineiros e seguranças. Os guias de mergulho, instrutores de desportos aquáticos e skippers de barcos representam categorias de emprego especializadas que requerem formação específica e certificações. O turismo também cria oportunidades de empreendedorismo informal, com artesãos locais vendendo artesanato aos turistas, vendedores de frutas e bebidas nas praias, e pequenos operadores de transporte.
A indústria de gás da Sasol em Inhambane proporciona empregos técnicos especializados em engenharia, operações de campo, manutenção e administração. Estes são empregos formais bem remunerados que requerem educação secundária ou terciária e formação técnica específica. O número total destes empregos é relativamente pequeno, talvez alguns milhares, mas representam oportunidades de alta qualidade para aqueles que têm as qualificações necessárias.
Ao longo da costa de Inhambane, a população continua a depender fortemente de pesca artesanal e produção de coco. Os coqueiros que cobrem extensas áreas costeiras fornecem matéria-prima para produção de copra, que depois é vendida para processamento em óleo de coco. Esta é muitas vezes uma atividade económica familiar onde diferentes membros contribuem com diferentes tarefas, desde colheita até processamento e venda.
A província de Gaza, conhecida como o celeiro do sul, tem meios de subsistência centrados na agricultura irrigada e criação de gado. O Esquema de Irrigação do Chókwè é particularmente importante porque permite o cultivo intensivo de arroz e hortaliças em áreas que de outra forma seriam demasiado secas ou irregulares em precipitação. Os agricultores no esquema de Chókwè não são agricultores de subsistência típicos mas sim produtores comerciais em pequena ou média escala que cultivam para o mercado. Eles pagam taxas pelo acesso à água de irrigação, podem usar inputs como fertilizantes e sementes melhoradas, e vendem as suas colheitas através de canais comerciais estabelecidos.
A criação de gado em Gaza segue padrões pastoris tradicionais mas também envolve cada vez mais criação comercial. O gado serve múltiplas funções: é fonte de leite e carne, mas também representa riqueza e capital que pode ser acumulado e mobilizado quando necessário. Em muitas comunidades, o número de cabeças de gado que uma família possui é um indicador direto de status económico e social.
O recente desenvolvimento da mineração de areias pesadas em Chibuto está a introduzir emprego industrial numa província tradicionalmente agrária. Como em outras operações mineiras de larga escala, o número de empregos diretos será limitado mas bem pagos para aqueles que os conseguem.
Um aspeto crucial dos meios de subsistência em Gaza que muitas vezes não aparece em estatísticas formais são as remessas de trabalhadores migrantes. Durante gerações, homens de Gaza atravessaram a fronteira para trabalhar nas minas de ouro da África do Sul, na construção, na agricultura comercial e noutros setores. Este fenómeno de migração laboral tem raízes históricas profundas que remontam ao período colonial e até antes. O dinheiro que estes trabalhadores migrantes enviam de volta para as suas famílias em Gaza representa uma fonte de rendimento absolutamente crucial para dezenas de milhares de agregados familiares. Sem estas remessas, a economia de muitas comunidades em Gaza simplesmente colapsaria. Mas este padrão também tem custos sociais significativos: famílias separadas por meses ou anos, crianças crescendo sem pais presentes, esposas gerindo sozinhas os agregados familiares, e comunidades onde a estrutura demográfica é distorcida pela ausência de homens em idade produtiva.
A província de Maputo, especialmente quando incluímos a cidade capital, representa o pináculo do emprego formal e diversificado em Moçambique. A fundição de alumínio Mozal e o Parque Industrial de Beluluane empregam milhares de pessoas em trabalho industrial e de engenharia. Estes são empregos que requerem competências técnicas, desde soldadores e operadores de máquinas até engenheiros e técnicos de manutenção. Os salários nestes setores industriais são substancialmente mais altos do que na agricultura ou no setor informal, permitindo aos trabalhadores aceder a um padrão de vida de classe média com capacidade de comprar casas, carros, educação para os filhos e outros marcadores de mobilidade económica ascendente.
O setor de serviços na província e cidade de Maputo cria uma classe média de colarinho branco que não existe em escala comparável noutras partes do país. Bancos, companhias de seguros, empresas de telecomunicações, escritórios de contabilidade e advocacia, empresas de consultoria, sedes de corporações multinacionais, todas estas instituições empregam administradores, gestores, profissionais especializados em finanças, marketing, recursos humanos, tecnologia de informação e muitas outras áreas. Estes são empregos que requerem educação universitária, que pagam salários que permitem estilos de vida urbanos confortáveis, e que oferecem caminhos de progressão de carreira.
O Porto de Maputo, tal como o de Beira e Nacala, suporta uma vasta rede de empregos em transporte e comércio. Mas Maputo também é o centro do setor informal urbano mais dinâmico do país, com mercados massivos como Xipamanine onde milhares de vendedores comercializam de tudo, desde roupas importadas até produtos agrícolas, eletrónica, materiais de construção e artigos domésticos. Este setor informal urbano emprega centenas de milhares de pessoas e funciona como uma rede de segurança crucial para aqueles que não conseguem encontrar emprego no setor formal.
Compreendendo as Tendências Nacionais de Emprego
Quando afastamos a nossa perspetiva depois desta jornada detalhada pelos padrões de emprego e meios de subsistência em todas as regiões e províncias de Moçambique, várias tendências nacionais tornam-se claras e merecem reflexão cuidadosa.
Primeiro, em todo o país, desde o interior profundo do Niassa até às cidades costeiras, o setor informal funciona como a principal rede de segurança económica, absorvendo a maioria da força de trabalho. Isto não é apenas uma peculiaridade estatística mas um facto fundamental sobre a estrutura da economia moçambicana. O setor formal, todas as empresas registadas, indústrias, plantações comerciais, operações mineiras e serviços organizados, simplesmente não cria empregos suficientes para absorver todas as pessoas que precisam trabalhar. O resultado é que a maioria das pessoas cria os seus próprios meios de subsistência através de iniciativa individual, vendendo no mercado, transportando pessoas, cultivando pequenas parcelas, pescando, fazendo biscates e prestando serviços informais.
Esta prevalência do setor informal tem implicações profundas que vocês devem compreender criticamente. Por um lado, demonstra a resiliência e o empreendedorismo da população moçambicana, que encontra formas de sobreviver e até prosperar apesar da falta de empregos formais. Por outro lado, revela as limitações do modelo de desenvolvimento económico baseado em megaprojetos intensivos em capital, que falha em criar emprego em massa. O setor informal oferece flexibilidade e autonomia mas também insegurança, baixos rendimentos, falta de proteção social, e vulnerabilidade a choques.
Segundo, apesar de todo o foco governamental em industrialização e desenvolvimento de megaprojetos, a agricultura continua a ser o maior empregador em absolutamente todas as províncias de Moçambique. Esta persistência da agricultura como base de emprego não é necessariamente um problema em si, porque a agricultura pode ser produtiva e remuneradora se bem apoiada. O problema é que grande parte da agricultura moçambicana continua de baixa produtividade, usando técnicas tradicionais com poucos inputs modernos, vulnerável a choques climáticos, e oferecendo rendimentos modestos. Melhorar a produtividade agrícola, ajudando os agricultores a produzir mais por hectare e por hora de trabalho, é fundamental para melhorar os meios de subsistência da maioria da população.
Terceiro, existe o problema do "enclave" que já mencionámos mas que vale a pena enfatizar mais uma vez. As indústrias extractivas, o gás no norte e sul, o carvão no centro, as areias pesadas em várias províncias, são os motores da macroeconomia, gerando a maior parte das receitas de exportação e contribuindo significativamente para o PIB medido. Mas estas indústrias têm ligações limitadas ao emprego local comparado com a agricultura e os serviços. Operam quase como enclaves económicos separados, com as suas próprias cadeias de fornecimento muitas vezes ligadas internacionalmente, empregando relativamente poucas pessoas localmente, e com a riqueza que geram fluindo principalmente para fora do país ou para os cofres do Estado em vez de se distribuir amplamente pela economia local criando empregos e rendimentos para as massas.
Esta desconexão entre onde a riqueza é gerada e onde as pessoas encontram emprego é talvez a característica mais fundamental e problemática da economia moçambicana. Resolver este problema requer não apenas mais investimento, mas investimento de um tipo diferente, em setores que são mais intensivos em trabalho, em agricultura e agroprocessamento, em indústria transformadora ligeira, em serviços, em pequenas e médias empresas que criam muitos empregos mesmo que individualmente pequenos. Quando estudam emprego e meios de subsistência em Moçambique, estão realmente a estudar como a maioria das pessoas experienciam a economia, quais são os seus desafios diários, e que tipo de mudanças estruturais seriam necessárias para criar oportunidades de trabalho digno e produtivo para todos.