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Os Principais Desafios Económicos e Oportunidades de Moçambique

Os Principais Desafios Económicos e Oportunidades de Moçambique: Navegando Entre Promessas e Realidades

Moçambique- Economia de 2 Realidades
Moçambique- Economia de 2 Realidades

Quando estudamos qualquer economia nacional, especialmente uma economia em desenvolvimento como a de Moçambique, não basta apenas descrever o que existe. Precisamos também compreender criticamente os desafios que impedem o progresso e as oportunidades que, se bem aproveitadas, poderiam transformar a vida de milhões de pessoas. Esta análise de desafios e oportunidades é particularmente importante para vocês, como futuros cidadãos informados e potenciais agentes de mudança, porque revela não apenas a fotografia atual mas também as possibilidades futuras e os obstáculos que precisam ser superados para as alcançar.

Em Moçambique, tanto os desafios quanto as oportunidades derivam em grande medida daquela estrutura dual que temos enfatizado ao longo de toda a nossa exploração da economia: de um lado, megaprojetos extractivos de alto valor que geram receitas massivas mas empregam poucas pessoas, do outro, um setor de subsistência de baixa produtividade que sustenta a vasta maioria da população mas contribui relativamente pouco para o PIB medido. Esta dualidade não é apenas uma característica descritiva da economia, mas a própria essência do desafio de desenvolvimento que o país enfrenta. Como transformar a riqueza gerada pelos megaprojetos em oportunidades tangíveis para as massas? Como elevar a produtividade do setor de subsistência para que as pessoas possam escapar da pobreza através do seu próprio trabalho? Estas são as questões fundamentais.

Vamos agora explorar, região por região, os desafios específicos e as oportunidades concretas que definem o panorama económico, sempre relacionando-os com a geografia física e humana que já estudaram em detalhe.

O Norte: A Maldição dos Recursos Versus o Sonho Industrial

norte de Moçambique
norte de Moçambique

Quando pensamos nas províncias do norte de Moçambique, especialmente Cabo Delgado, deparamo-nos com um dos paradoxos mais profundos do desenvolvimento económico contemporâneo, aquilo que os economistas chamam de "maldição dos recursos naturais". Este conceito merece que o compreendam cuidadosamente porque contradiz a intuição comum de que ter recursos naturais abundantes deveria automaticamente levar à prosperidade.

O desafios que o Norte enfrenta, 

e que se replica em menor grau noutras províncias do norte, é o que podemos chamar de economia de enclave. Imaginem uma ilha económica, um espaço onde operam empresas multinacionais gigantescas com tecnologia de ponta, gerando milhares de milhões de dólares em valor, mas essa ilha está apenas fracamente conectada à economia circundante onde a maioria das pessoas vive. Em Cabo Delgado, enquanto gigantes energéticos globais desenvolvem projetos de GNL que eventualmente poderão gerar mais receitas de exportação do que todo o resto da economia moçambicana combinado, enquanto minas extraem rubis que valem milhares de dólares por quilate e grafite crucial para a revolução dos veículos elétricos, estes projetos funcionam essencialmente como enclaves intensivos em capital.

Para compreenderem porque isto é um problema, precisam pensar sobre o que realmente significa desenvolvimento económico para a maioria das pessoas. Desenvolvimento não é principalmente sobre estatísticas macroeconómicas impressionantes de PIB ou receitas de exportação. É sobre se as pessoas comuns conseguem encontrar trabalho digno que pague salários que lhes permitam alimentar as suas famílias, educar os seus filhos, ter acesso a cuidados de saúde, e viver com dignidade e segurança. Os megaprojetos em Cabo Delgado, pela sua natureza intensiva em capital e tecnologicamente avançada, criam relativamente poucos empregos diretos. Uma plataforma de gás ao largo pode custar mil milhões de dólares para construir mas empregar apenas algumas centenas de pessoas para operar. Uma mina de grafite altamente mecanizada pode processar milhões de toneladas de minério com alguns milhares de trabalhadores.

O resultado desta estrutura de enclave é que oitenta a noventa por cento da força de trabalho da região permanece presa naquilo que podemos chamar de armadilha de subsistência. Estas pessoas continuam a depender de pesca de subsistência, onde saem ao mar em embarcações simples esperando apanhar peixe suficiente para o dia, de agricultura de subsistência cultivando pequenas parcelas com técnicas tradicionais e rendimentos baixos, e de comércio informal de rua onde vendem bens básicos com margens mínimas. Estes meios de subsistência oferecem pouca segurança de rendimento, são extremamente vulneráveis a choques climáticos, doenças ou flutuações de mercado, e proporcionam rendimentos que mal permitem cobrir as necessidades básicas, muito menos investir em educação, saúde ou acumulação de capital.

Mas existe um desafio adicional em Cabo Delgado que ameaça fundamentalmente não apenas o desenvolvimento económico mas a própria estabilidade e segurança da província e da região mais ampla. Vocês precisam compreender que desde aproximadamente dois mil e dezassete, Cabo Delgado tem sido palco de uma insurgência violenta que evoluiu para aquilo que muitos analistas agora caracterizam como terrorismo. Grupos armados, inicialmente apresentando-se como tendo motivações religiosas e proclamando afiliações ao Estado Islâmico, têm levado a cabo ataques devastadores contra comunidades civis, instalações governamentais e infraestruturas económicas em vários distritos da província, especialmente nas regiões costeiras do norte.

A província do Niassa enfrenta um desafio diferente mas igualmente significativo: o isolamento geográfico. Lembrem-se da geografia física que estudaram. O Niassa situa-se no topo do país, em planaltos elevados, separado da costa por centenas de quilómetros de terreno acidentado. Historicamente, esta província estava entre as mais isoladas e menos acessíveis de Moçambique. Apesar do seu potencial agrícola imenso, terras abundantes, precipitação confiável, solos razoavelmente férteis e clima favorável para várias culturas comerciais, o Niassa permaneceu subdesenvolvido em grande parte porque simplesmente não havia maneira económica de transportar produtos agrícolas para os mercados. De que adianta produzir toneladas de soja ou madeira se o custo de a transportar até um porto para exportação é tão alto que elimina qualquer lucro potencial?

A construção da ligação ferroviária do Niassa ao Porto de Nacala foi um avanço importante, mas o desafio de integrar verdadeiramente esta província na economia nacional e regional permanece. As infraestruturas ainda são deficientes, o acesso a insumos agrícolas modernos é limitado, os serviços de extensão agrícola que poderiam ajudar os agricultores a melhorar as suas práticas são escassos, e o acesso a crédito que permitiria investimentos produtivos é praticamente inexistente para a maioria das pessoas. Romper este ciclo de isolamento e subdesenvolvimento requer investimentos sustentados não apenas em infraestruturas físicas mas também em capital humano, instituições e serviços.


Mas se estes são os desafios, quais são então as oportunidades no norte? 

E aqui precisam compreender que a presença dos mesmos recursos que criam os desafios de enclave também representa oportunidades genuínas se forem geridos adequadamente. A Bacia do Rovuma em Cabo Delgado, com as suas reservas massivas de gás natural, representa a maior oportunidade individual para crescimento de receitas fiscais na história de Moçambique. Quando estes projetos estiverem plenamente operacionais e a gerar receitas de exportação massivas, o Estado moçambicano receberá, através de impostos, royalties e participações, fluxos de receitas que poderiam, se bem geridos e investidos, transformar fundamentalmente a capacidade do país de fornecer educação, saúde, infraestruturas e outros serviços públicos.

A questão crítica não é se estas receitas virão, porque eventualmente virão, mas como serão usadas. Serão canalizadas para investimentos produtivos em educação, saúde, agricultura e infraestruturas que beneficiam amplamente a população? Ou serão desperdiçadas em consumo governamental, corrupção e projetos de prestígio que beneficiam poucos? Esta é uma questão fundamentalmente política e de governação, não apenas económica, e a resposta determinará se o gás de Cabo Delgado se torna uma bênção ou uma maldição para o desenvolvimento nacional.

Os depósitos de grafite e rubis representam oportunidades semelhantes. À medida que o mundo transita para veículos elétricos e outras tecnologias verdes que dependem de baterias, a procura por grafite de alta qualidade crescerá dramaticamente. Moçambique está posicionado para ser um fornecedor importante deste mineral crítico. A questão é se o país conseguirá capturar mais valor desta cadeia, não apenas extraindo e exportando o minério bruto mas desenvolvendo capacidades de processamento local que agreguem mais valor e criem mais empregos.

A província de Nampula oferece uma oportunidade massiva que já está parcialmente a ser aproveitada mas que poderia ser enormemente expandida: o Corredor de Nacala. Este corredor não é apenas uma ferrovia e um porto, mas um sistema integrado de infraestruturas de transporte que liga a costa profunda da África ao interior encravado. A oportunidade aqui é dupla. Primeiro, há a receita direta de serviços logísticos, as taxas portuárias, tarifas ferroviárias, serviços de armazenamento e manuseamento de carga que geram rendimentos significativos. Segundo, e talvez mais importante a longo prazo, há a oportunidade de usar o corredor não apenas como rota de trânsito mas como eixo de desenvolvimento económico.

Ao longo dos corredores de transporte bem desenvolvidos, criam-se oportunidades para processamento agrícola, porque os produtos podem ser transportados eficientemente, para indústria transformadora ligeira que se beneficia do acesso facilitado tanto a matérias-primas quanto a mercados de exportação, e para uma gama de serviços associados. Transformar o Corredor de Nacala de uma simples rota de trânsito numa verdadeira zona de desenvolvimento económico requer planeamento estratégico, investimento coordenado em infraestruturas complementares como eletricidade e água, e políticas que incentivem empresas a localizar-se ao longo do corredor.

Há também oportunidades significativas em industrializar as cadeias de valor agrícolas e florestais existentes. Nampula já é o líder nacional na produção de castanha de caju, mas grande parte desta castanha ainda é exportada crua ou apenas minimamente processada. A oportunidade está em desenvolver uma indústria de processamento de caju mais sofisticada que não apenas descasca as castanhas mas as transforma em produtos de maior valor agregado como castanhas torradas e salgadas embaladas para mercados de consumo final, pasta de caju, ou mesmo cosméticos e produtos farmacêuticos derivados do óleo de castanha. Cada etapa adicional de processamento adiciona mais valor, cria mais empregos, e permite que mais da riqueza gerada pela cadeia fique dentro de Moçambique em vez de ser capturada por processadores e marcas em outros países.

No Niassa, a indústria florestal de pinheiro e eucalipto poderia ser expandida não apenas em termos de área plantada mas também em termos de processamento. Em vez de exportar principalmente toros de madeira ou celulose bruta, há oportunidades para desenvolver indústrias de produtos de madeira acabados, desde mobília até materiais de construção pré-fabricados, que capturam muito mais valor. O algodão produzido em Nampula e Niassa poderia alimentar uma indústria têxtil local em vez de ser exportado como fibra bruta. Estas oportunidades de industrialização orientada para o processamento de recursos agrícolas e naturais representam caminhos potenciais para criar empregos em massa e escapar da armadilha de apenas exportar matérias-primas de baixo valor.

O Centro: Potência Logística Versus Vulnerabilidade Climática

As províncias centrais de Moçambique
As províncias centrais de Moçambique

As províncias centrais de Moçambique enfrentam um conjunto de desafios e oportunidades moldados tanto pela sua posição geográfica estratégica como porta de entrada para o interior da África Austral quanto pela sua vulnerabilidade a choques climáticos cada vez mais severos.

O desafio mais óbvio na província de Tete é a dependência extrema de uma única commodity global: o carvão. Quando estudaram a economia de Tete, viram como a mineração de carvão domina o PIB provincial e gera receitas de exportação massivas. Mas esta dependência cria uma vulnerabilidade profunda. Os preços globais do carvão são notoriamente voláteis, flutuando dramaticamente em resposta a mudanças na procura global por aço, que é o principal mercado para o carvão metalúrgico de Moatize, e em resposta a políticas energéticas e ambientais que afetam o uso de carvão para geração de eletricidade.

Para compreenderem a magnitude desta volatilidade, considerem que durante períodos de boom, quando a China, Índia e outros países estão a expandir rapidamente a sua produção de aço e infraestruturas, os preços do carvão metalúrgico podem disparar para níveis que tornam a mineração em Moatize extremamente lucrativa. As empresas mineiras expandem operações, contratam mais trabalhadores, investem em nova maquinaria, e as receitas fiscais fluem para os cofres do Estado. Mas quando a economia global abranda, ou quando políticas ambientais levam a reduções no uso de carvão, os preços podem cair drasticamente, às vezes em mais de cinquenta por cento em questão de meses. Operações que eram lucrativas tornam-se repentinamente não viáveis, minas fecham temporariamente ou permanentemente, milhares de trabalhadores são despedidos, e toda a economia provincial sofre um choque severo.

Além disso, há uma questão estrutural de longo prazo que Tete e Moçambique precisam confrontar. O mundo está gradualmente a afastar-se dos combustíveis fósseis, incluindo o carvão, devido às preocupações com as alterações climáticas. Embora o carvão metalúrgico usado na produção de aço seja menos vulnerável a esta transição do que o carvão térmico usado para gerar eletricidade, porque ainda não existem alternativas amplamente viáveis ao uso de carvão de coque na siderurgia, eventualmente mesmo este mercado poderá contrair-se à medida que novas tecnologias de produção de aço verde são desenvolvidas. Isto significa que a dependência de Tete no carvão não é sustentável indefinidamente, e a província precisa começar a diversificar a sua base económica antes que o mercado de carvão entre em declínio terminal.

O desafio agrava-se pelo facto de que, como já discutimos extensamente, a mineração de carvão, embora domine o PIB, emprega apenas uma força de trabalho industrial específica e limitada. A população mais ampla de Tete continua dependente da agricultura de subsistência, que é precária e de baixa produtividade. A riqueza gerada pela mineração não se distribui amplamente pela economia provincial de formas que elevem os meios de subsistência da maioria. Esta desconexão entre o setor moderno de alta produtividade e o setor tradicional de baixa produtividade é um desafio de desenvolvimento que requer políticas deliberadas para criar ligações, por exemplo, através do desenvolvimento de pequenas e médias empresas que fornecem bens e serviços para a indústria mineira, ou através do investimento das receitas mineiras em infraestruturas e serviços que beneficiam todos.

As províncias de Sofala e Zambézia enfrentam um desafio que é simultaneamente antigo e cada vez mais severo: a vulnerabilidade climática. Lembrem-se da geografia física que estudaram. Sofala é caracterizada por planícies costeiras de baixa altitude, vastas áreas que se elevam apenas alguns metros acima do nível do mar, atravessadas por grandes rios como o Zambeze, Púnguè e Búzi, e com uma plataforma continental muito larga e rasa conhecida como Banco de Sofala. Esta configuração geográfica torna Sofala extraordinariamente vulnerável a ciclones tropicais e às inundações que estes provocam.

Quando um ciclone se aproxima de Sofala, o que acontece regularmente durante a estação ciclónica que vai de novembro a abril, as consequências podem ser catastróficas. Os ventos extremos, que podem ultrapassar duzentos quilómetros por hora, destroem casas, derrubam linhas de eletricidade, danificam infraestruturas portuárias e arrancam telhados de edifícios. Mas muitas vezes é a água, não o vento, que causa os maiores danos. Os ciclones trazem chuvas torrenciais que podem descarregar centenas de milímetros em apenas vinte e quatro horas, causando cheias fluviais massivas. Simultaneamente, os ventos empurram enormes volumes de água do oceano em direção à costa, criando marés de tempestade, elevações temporárias mas dramáticas do nível do mar que podem ultrapassar vários metros. Quando esta parede de água alcança a costa baixa e plana de Sofala, não há praticamente nada para a deter, e áreas costeiras são inundadas por dezenas de quilómetros para o interior.

O Ciclone Idai em março de dois mil e dezanove exemplificou tragicamente esta vulnerabilidade. O ciclone atingiu Sofala com força devastadora, causando cheias que afetaram centenas de milhares de pessoas, destruindo casas, culturas, infraestruturas e causando centenas de mortes. A cidade da Beira, o centro económico da província e sede do porto crucial, foi severamente danificada. A recuperação destes desastres leva anos e custa centenas de milhões de dólares. E o problema está a piorar. As alterações climáticas globais estão a tornar os ciclones tropicais mais intensos e possivelmente mais frequentes, aumentando a probabilidade de eventos catastróficos como o Idai.

A Zambézia, com as suas vastas planícies aluviais associadas ao Delta do Zambeze e outros rios, enfrenta vulnerabilidades semelhantes de inundação, embora seja menos exposta a ciclones diretos do que Sofala. Para ambas as províncias, esta vulnerabilidade climática representa não apenas um desafio humanitário mas também um constrangimento económico profundo. Cada vez que um ciclone atinge, destrói anos de progresso de desenvolvimento, interrompe o comércio através dos portos e corredores, destrói culturas nas regiões que deveriam ser o celeiro do país, e drena recursos do Estado que poderiam ser investidos em desenvolvimento para a reconstrução de emergência. Adaptar-se a esta nova realidade climática requer investimentos massivos em infraestruturas resilientes, sistemas de alerta precoce, planeamento de uso da terra que evite assentamentos em áreas de maior risco, e programas de seguro e proteção social que ajudem as pessoas a recuperar após desastres.

O terceiro grande desafio no centro relaciona-se com infraestruturas. Manter o Corredor da Beira funcionando eficientemente é um desafio constante que requer investimento contínuo. As estradas e ferrovias que ligam o Porto de Beira ao Zimbabué e Maláui precisam de manutenção regular, as instalações portuárias precisam de ser modernizadas para manusear volumes crescentes e tipos diferentes de carga, e toda a cadeia logística precisa funcionar de forma coordenada e eficiente. Quando há interrupções, seja devido a falta de manutenção, desastres naturais ou instabilidade política, o impacto económico é severo não apenas para Sofala mas para toda a região que depende deste corredor.


Mas onde há desafios, também há oportunidades, e as províncias centrais certamente não carecem destas. Tete, apesar da sua dependência problemática no carvão, oferece uma oportunidade tremenda como o coração energético da região. A Barragem de Cahora Bassa já é a maior fonte individual de geração de eletricidade em Moçambique e na região mais ampla, mas existe potencial significativo para expansão. A barragem foi originalmente concebida com capacidade para mais turbinas do que as que estão atualmente instaladas. Adicionar capacidade de geração adicional poderia aumentar dramaticamente a produção de eletricidade, fornecendo energia não apenas para Moçambique mas também para exportação para vizinhos que enfrentam deficits energéticos crónicos.

Além da hidroeletricidade, há também a possibilidade de usar o gás natural de Inhambane, que já é transportado por gasoduto através do país, para desenvolver centrais de geração a gás em Tete ou noutras localidades estratégicas. A energia baseada em gás, embora ainda um combustível fóssil, é significativamente mais limpa do que o carvão e pode servir como energia de transição enquanto o país desenvolve capacidades em renováveis como solar e eólica. Posicionar Tete como o centro energético de Moçambique, fornecendo eletricidade abundante e confiável que poderia alimentar a industrialização noutras partes do país, seria uma forma de capturar mais valor dos recursos naturais da província e criar uma base económica mais diversificada e sustentável.

A região centro-central também possui o portfólio agrícola mais diversificado do país, e há oportunidades significativas em expandir o agroprocessamento. A Zambézia produz chá de alta qualidade nas terras altas de Gurué, mas grande parte deste chá é exportado como produto semi-acabado. Desenvolver capacidades de embalagem, marcação e marketing que permitissem vender chá moçambicano diretamente aos consumidores finais em mercados internacionais capturaria muito mais valor. O açúcar produzido em vastas plantações em Sofala poderia alimentar não apenas mercados de açúcar refinado mas também indústrias derivadas como produção de etanol para biocombustíveis ou fermentação para bebidas. As frutas de exportação e tabaco de Manica representam cadeias de valor que poderiam ser expandidas e aprofundadas.

Os portos de Beira e Nacala são ativos críticos que oferecem oportunidades para gerar não apenas receitas de trânsito mas também empregos no setor de serviços. Modernizar estas instalações portuárias, expandir a sua capacidade, e melhorar a eficiência das operações poderia permitir-lhes manusear volumes muito maiores de carga, gerando mais receitas e criando mais empregos em logística, transporte, armazenamento e toda a cadeia de serviços associados. Além disso, os portos poderiam servir como âncoras para zonas económicas especiais onde indústrias orientadas para exportação poderiam localizar-se, beneficiando-se do acesso direto a transporte marítimo internacional.

O Sul: Diversificação Versus Aridez

As províncias do sul de Moçambique
As províncias do sul de Moçambique

As províncias do sul de Moçambique apresentam um conjunto diferente de desafios e oportunidades, refletindo não apenas a sua geografia física, que já estudaram em detalhe, mas também a sua proximidade à África do Sul e a sua posição como a região economicamente mais desenvolvida e diversificada do país.

O desafio climático fundamental em Gaza é a aridez severa e os ciclos de seca. Lembrem-se de que Gaza situa-se na zona mais seca de Moçambique, especialmente o interior profundo em direção à fronteira com o Zimbabué. A precipitação aqui é não apenas baixa em média mas também altamente irregular de ano para ano. Pode haver anos onde a chuva simplesmente não vem em quantidades adequadas, levando a secas que destroem culturas, matam gado, secam poços e nascentes, e empurram as pessoas para a fome. Esta aridez torna os meios de subsistência precários. A agricultura de sequeiro, que depende apenas da chuva natural sem irrigação, é uma aposta arriscada onde os agricultores plantam esperando que as chuvas venham mas sabendo que podem falhar.

É por isso que os esforços de irrigação intensiva como o Esquema de Irrigação do Chókwè são tão importantes em Gaza. Estes sistemas permitem agricultura produtiva mesmo em regiões áridas, captando água de rios e distribuindo-a de forma controlada através de canais para os campos. Mas desenvolver e manter infraestruturas de irrigação é caro, requer gestão cuidadosa dos recursos hídricos, e cria dependências porque se a infraestrutura falhar ou se a água do rio diminuir devido a secas rio acima ou devido ao uso excessivo por outros, toda a agricultura irrigada colapsa. Muitas famílias em Gaza também dependem de remessas de trabalhadores migrantes na África do Sul, uma fonte de rendimento que é vulnerável a mudanças nas políticas de imigração sul-africanas, a flutuações na economia sul-africana que afetam a disponibilidade de empregos, e a xenofobia periódica que pode tornar perigoso para moçambicanos trabalhar na África do Sul.

A província de Maputo e a cidade capital enfrentam um desafio de natureza muito diferente: desigualdade dramática. Como viram quando estudaram o emprego, Maputo abriga uma classe média de colarinho branco e uma densidade elevada de empregos formais em indústria, serviços financeiros e comércio que simplesmente não existe em escala comparável noutras partes do país. Os salários nestes setores permitem estilos de vida urbanos confortáveis, acesso a educação de qualidade, cuidados de saúde privados, habitação decente, e consumo de bens e serviços que seriam inacessíveis para a maioria dos moçambicanos. Mas esta prosperidade relativa está concentrada numa pequena minoria da população mesmo dentro da província de Maputo.

Nas áreas rurais circundantes e nas periferias urbanas informais que rodeiam a cidade de Maputo, o setor informal ainda domina, e as pessoas vivem em condições de pobreza que contrastam gritantemente com a riqueza visível nos bairros de classe média e alta. Esta desigualdade não é apenas uma questão de justiça social mas também uma fonte de tensões sociais e políticas. Quando grupos de pessoas vivem lado a lado mas experimentam realidades económicas radicalmente diferentes, com alguns tendo acesso a todas as oportunidades e serviços enquanto outros são sistematicamente excluídos, cria-se ressentimento, instabilidade e potencial para conflito.

Um terceiro desafio no sul, particularmente em Maputo, é o desemprego juvenil. Apesar da concentração de indústria na região, o setor manufatureiro, exemplificado pela Mozal, é altamente automatizado e intensivo em capital. A fundição de alumínio emprega alguns milhares de pessoas, o que é significativo mas modesto comparado com a população total e especialmente comparado com o número de jovens que entram no mercado de trabalho a cada ano procurando emprego. Moçambique, como a maioria dos países africanos, tem uma população muito jovem. Uma fração enorme da população tem menos de vinte e cinco anos. À medida que estes jovens completam a educação, seja primária, secundária ou até terciária, procuram oportunidades de emprego. Mas a economia formal simplesmente não está a criar empregos suficientes para absorver este fluxo de novos trabalhadores.

O resultado é uma geração de jovens, muitos com educação razoável e aspirações legítimas de mobilidade económica, que não conseguem encontrar empregos formais. Alguns acabam no setor informal, vendendo no mercado ou conduzindo chapas, trabalho que oferece rendimentos modestos mas não corresponde às suas qualificações ou aspirações. Outros permanecem completamente desempregados, dependendo das suas famílias. Esta situação de desemprego e subemprego juvenil não é apenas economicamente desperdiçadora, representando talento e potencial humano que não está a ser utilizado produtivamente, mas também socialmente perigosa porque jovens frustrados sem oportunidades económicas são vulneráveis à criminalidade, ao extremismo ou à instabilidade política.


Mas novamente, onde há desafios, há também oportunidades significativas no sul. A província de Maputo, com o Parque Industrial de Beluluane e a Mozal, e Gaza com o projeto de areias pesadas de Chibuto, oferecem as melhores oportunidades em todo o país para desenvolvimento industrial pesado e criação de ligações manufatureiras. A ideia de ligações manufatureiras é crucial para compreenderem. Quando uma grande indústria como a Mozal se estabelece numa região, cria potencialmente oportunidades para outras empresas fornecerem inputs, serviços e produtos relacionados. Por exemplo, a Mozal precisa de manutenção constante das suas instalações, criando oportunidades para empresas de engenharia e reparação. Precisa de uniformes para os trabalhadores, criando oportunidades para a indústria têxtil local. Precisa de serviços de catering, limpeza, segurança, transporte e muitos outros, todos potencialmente fornecidos por pequenas e médias empresas locais.

Desenvolver estas ligações requer políticas deliberadas que encorajem ou até exijam que grandes indústrias contratem fornecedores locais quando possível, programas de desenvolvimento de fornecedores que ajudem pequenas empresas a alcançar os padrões de qualidade e confiabilidade necessários para fornecer para grandes indústrias, e acesso a financiamento que permita às empresas locais investir no equipamento e capacidades necessárias. Se estas ligações puderem ser desenvolvidas com sucesso, uma única grande indústria como a Mozal poderia gerar empregos não apenas diretamente mas através de uma rede de fornecedores e prestadores de serviços, multiplicando o impacto económico.

A província de Inhambane oferece uma oportunidade única relacionada com a cadeia de valor do gás natural. Ao contrário do gás de Cabo Delgado que está a ser desenvolvido principalmente para exportação como GNL, o gás em terra de Inhambane nos campos de Pande e Temane está já a ser usado domesticamente para geração de eletricidade. Esta é uma oportunidade crucial porque acesso a eletricidade confiável e a preços razoáveis é fundamental para a industrialização. Muitos tipos de indústria transformadora, desde processamento de alimentos até fabricação de componentes electrónicos, requerem eletricidade abundante e estável. Se Moçambique conseguir usar o seu gás natural não apenas para gerar receitas de exportação mas para alimentar a industrialização doméstica, fornecendo energia que torna a manufatura competitiva, poderia criar milhares ou até milhões de empregos em indústria transformadora que emprega pessoas em massa.

O setor de turismo em Inhambane e Maputo representa outra oportunidade significativa. O turismo tem a vantagem de ser intensivo em trabalho, criando muitos empregos por unidade de investimento, e de gerar receitas em divisas estrangeiras. Moçambique possui ativos turísticos excepcionais: praias pristinas que rivalizam com qualquer outra no mundo, recifes de coral ricos em biodiversidade, arquipélagos de ilhas tropicais, vida marinha espetacular incluindo baleias, golfinhos, tubarões-baleia e raias manta, e património cultural único. A Ilha de Moçambique, Bazaruto, Vilankulo, Tofo, Ponta do Ouro, todos estes são destinos que atraem turistas internacionais dispostos a pagar preços premium por experiências de qualidade.

A oportunidade está em expandir o setor turístico de forma que beneficie mais amplamente as comunidades locais em vez de apenas operadores internacionais e uma elite local. Isto requer desenvolver capacidades locais em hospitalidade e gestão de turismo através de educação e formação, encorajar o turismo comunitário onde aldeias locais podem oferecer experiências culturais autênticas aos visitantes e capturar diretamente as receitas, e criar ligações entre o turismo e outros setores como agricultura e artesanato, para que os resorts comprem alimentos de agricultores locais e artesanato de artesãos locais em vez de importar tudo.

O setor de serviços financeiros em Maputo, embora pequeno pelos padrões globais, é o mais desenvolvido da região e oferece oportunidades para exportação de serviços. Bancos moçambicanos poderiam expandir operações para países vizinhos, empresas de seguros poderiam oferecer produtos em mercados regionais, e firmas de consultoria poderiam vender expertise em gestão, contabilidade e outros serviços profissionais. Estes serviços de alto valor agregado criam empregos qualificados bem remunerados e diversificam a economia para além da dependência em commodities físicas.

Compreendendo as Tendências Nacionais: Sintetizando Desafios e Oportunidades


Quando afastamos a nossa perspetiva e olhamos para os desafios e oportunidades de Moçambique como um todo, dois temas emergem como absolutamente centrais.

O desafio principal, que atravessa todas as regiões e que temos enfatizado repetidamente, é a incapacidade dos megaprojetos de gerar emprego em massa. Esta é a contradição fundamental da economia moçambicana: os projetos que geram a maior parte das receitas de exportação e que aparecem de forma proeminente em estatísticas e relatórios económicos são precisamente aqueles que criam menos empregos. Gás, carvão e alumínio, os três pilares da economia de exportação, são todos intensivos em capital, altamente mecanizados, tecnologicamente avançados e, consequentemente, empregadores modestos de trabalho. Isto deixa o setor informal como a principal rede de segurança para a população, uma situação que reflete tanto a resiliência e empreendedorismo das pessoas quanto a falha estrutural do modelo de desenvolvimento em criar oportunidades adequadas.

Resolver este desafio fundamental requer uma mudança estratégica em direção a setores que são mais intensivos em trabalho. A agricultura, se bem apoiada com infraestruturas de irrigação, acesso a insumos modernos, serviços de extensão, crédito e ligações a mercados, pode ser muito mais produtiva do que é atualmente e pode sustentar rendimentos significativamente mais altos para milhões de famílias rurais. O agroprocessamento, transformando produtos agrícolas brutos em produtos acabados de maior valor, é intensivo em trabalho e cria empregos tanto rurais quanto urbanos. A indústria transformadora ligeira, como têxteis, vestuário, montagem de produtos electrónicos, processamento de alimentos e fabricação de materiais de construção, emprega muitas pessoas e pode ser competitiva se houver acesso a energia confiável, boas infraestruturas e políticas de apoio. O setor de serviços, desde turismo até tecnologias de informação, é naturalmente intensivo em trabalho. Orientar o desenvolvimento económico em direção a estes setores requer políticas deliberadas e investimento público que atualmente está desproporcionalmente focado em apoiar os megaprojetos extractivos.

A oportunidade principal está em usar os corredores de transporte, Nacala, Beira e Maputo, não apenas como rotas de trânsito mas como eixos de desenvolvimento que estimulam a agricultura e indústria local. Atualmente, estes corredores funcionam principalmente para mover carvão, minerais e outras commodities do interior para os portos para exportação, ou para transportar bens importados dos portos para o interior. Mas os corredores poderiam ser muito mais do que isto. Ao longo dos corredores bem desenvolvidos, com acesso a transporte eficiente, eletricidade confiável e outros serviços, empresas de processamento e manufatura poderiam estabelecer-se, transformando os enclaves extractivos em zonas económicas mais amplas que geram emprego e rendimento ao longo de toda a sua extensão.

Imaginem o Corredor de Nacala não apenas como uma ferrovia que transporta carvão de Tete para o porto, mas como um eixo de desenvolvimento ao longo do qual fábricas de processamento de castanha de caju em Nampula, instalações de serragem e processamento de madeira no Niassa, e operações de agroprocessamento em múltiplas localidades estão todas conectadas, beneficiando-se do acesso facilitado ao transporte. Imaginem o Corredor da Beira com zonas económicas especiais em Chimoio e noutros pontos estratégicos onde indústrias orientadas para exportação se localizam, empregando milhares de pessoas. Imaginem o Corredor de Maputo com parques industriais bem desenvolvidos onde a proximidade à África do Sul e ao porto internacional cria vantagens competitivas para manufatura.

Transformar esta visão em realidade requer mais do que apenas infraestruturas físicas de transporte, embora estas sejam fundamentais. Requer uma abordagem integrada que combine investimento em energia, água, telecomunicações e outros serviços essenciais, com políticas que incentivem empresas a localizar-se nos corredores, com investimento em educação e formação profissional que crie a força de trabalho qualificada necessária, e com instituições eficazes que forneçam os serviços regulatórios, financeiros e de apoio empresarial que as empresas precisam para prosperar.

Quando estudam os desafios económicos e as oportunidades de Moçambique, estão realmente a estudar as escolhas estratégicas que o país enfrenta sobre o seu futuro. O caminho atual, centrado em megaprojetos extractivos que geram receitas mas não empregos, leva a crescimento económico estatístico mas não a desenvolvimento inclusivo que melhora as vidas da maioria. Um caminho alternativo, focado em agricultura produtiva, agroprocessamento, indústria transformadora intensiva em trabalho, e desenvolvimento de serviços, poderia criar emprego em massa e oportunidades de mobilidade económica para milhões. Qual caminho Moçambique seguirá dependerá das políticas adotadas, dos investimentos feitos e, fundamentalmente, da capacidade de transformar a riqueza dos recursos naturais em desenvolvimento humano abrangente.