Uma Geografia da Economia de Moçambique
A Economia de Moçambique: Uma Geografia do Desenvolvimento e dos Desafios

Quando começamos a estudar a economia de um país, estamos na verdade a tentar compreender como as pessoas ganham a vida, o que produzem, o que consomem, e como trocam bens e serviços entre si e com o resto do mundo. No caso de Moçambique, esta não é uma história simples ou uniforme. Se viajassem de norte a sul do país, observando atentamente as atividades económicas em cada região, descobririam algo fascinante: Moçambique não tem uma economia, mas várias economias regionais que coexistem dentro das mesmas fronteiras nacionais, cada uma com as suas próprias características, recursos e desafios.
Para compreenderem verdadeiramente a economia moçambicana, precisam primeiro entender uma característica fundamental que a define: a sua estrutura dual. Imaginem um país dividido não geograficamente, mas economicamente, em dois mundos quase paralelos. De um lado, existe um setor extractivo e industrial de alta receita, dominado por megaprojetos que envolvem investimentos de milhares de milhões de dólares em gás natural, carvão, alumínio e areias pesadas. Estes projetos utilizam tecnologia de ponta, empregam relativamente poucas pessoas, geram receitas enormes e estão profundamente integrados nos mercados globais. Do outro lado, existe uma base agrária de subsistência que emprega a vasta maioria da população moçambicana, aproximadamente oitenta por cento da força de trabalho. Estas são as famílias que cultivam pequenas parcelas de terra, muitas vezes sem acesso a tratores, fertilizantes ou sistemas de irrigação, produzindo principalmente para o seu próprio consumo e vendendo apenas os excedentes nos mercados locais.
Esta dualidade cria um paradoxo que precisam compreender: Moçambique pode ter estatísticas macroeconómicas que mostram crescimento económico impressionante em certos anos, impulsionado pelos megaprojetos, mas a maioria da população permanece em situação de pobreza, porque a riqueza gerada por estes grandes projetos não se distribui amplamente pela sociedade. É como se existissem duas economias operando lado a lado, com conexões limitadas entre elas. Mantendo esta realidade em mente, vamos agora explorar como a economia se manifesta em cada região do país, sempre relacionando as atividades económicas com a geografia física que já estudaram.
O Norte: Gás, Logística e Culturas de Rendimento
Quando viajamos para as províncias do norte de Moçambique, encontramos uma região económica que está a passar por uma transformação profunda, transitando de uma economia baseada principalmente na agricultura tradicional para aquilo que pode vir a ser um dos centros energéticos globais mais importantes das próximas décadas. No entanto, esta transformação está a acontecer de forma desigual e enfrenta desafios significativos, incluindo questões de segurança que ameaçam atrasar ou mesmo comprometer alguns dos investimentos mais ambiciosos.
A província de Cabo Delgado tornou-se, quase da noite para o dia em termos históricos, uma prioridade económica nacional de primeira ordem. A razão para esta súbita proeminência pode ser resumida em três letras: GNL, ou Gás Natural Liquefeito. Para compreenderem a magnitude do que está a acontecer em Cabo Delgado, precisam primeiro entender o que é o gás natural e porque é tão valioso. O gás natural é um combustível fósil, como o petróleo ou o carvão, que se formou ao longo de milhões de anos a partir da decomposição de matéria orgânica enterrada nas profundezas da crosta terrestre. Ao contrário do petróleo que é líquido, o gás natural é gasoso à temperatura e pressão normais, o que torna o seu transporte desafiante. A solução é arrefecê-lo a temperaturas extremamente baixas, cerca de menos cento e sessenta graus Celsius, transformando-o num líquido que ocupa apenas um seiscentos avos do volume do gás, tornando economicamente viável transportá-lo em navios especiais através dos oceanos.
Ao largo da costa de Cabo Delgado, na chamada Bacia do Rovuma, foram descobertas algumas das maiores reservas de gás natural do mundo. Para colocarem isto em perspetiva, as estimativas sugerem que existem aqui triliões de metros cúbicos de gás, o suficiente para abastecer países inteiros durante décadas. Empresas multinacionais gigantes como a TotalEnergies da França, a Eni da Itália e a ExxonMobil dos Estados Unidos investiram dezenas de milhares de milhões de dólares para construir instalações que extrairão este gás do fundo do oceano, o processarão, liquefazê-lo-ão e depois o exportarão para mercados na Ásia, Europa e outros lugares. Quando estes projetos estiverem plenamente operacionais, e isto ainda levará alguns anos devido a atrasos causados por insurgências na região, Moçambique poderá tornar-se um dos principais exportadores mundiais de GNL, gerando receitas que poderiam transformar fundamentalmente as finanças do Estado moçambicano.
Mas Cabo Delgado não é apenas sobre gás. A província também abriga operações mineiras de classe mundial. Em Balama, no interior da província, encontra-se uma das maiores minas de grafite do mundo. A grafite é um mineral de carbono com uma estrutura cristalina única que o torna extremamente útil em diversas aplicações industriais, desde os materiais refratários usados em fornos de alta temperatura até, mais recentemente, nas baterias de iões de lítio que alimentam veículos elétricos e dispositivos eletrónicos. À medida que o mundo transita para tecnologias mais limpas, a procura por grafite tem aumentado dramaticamente. Em Montepuez, outra parte de Cabo Delgado, existe uma das operações de mineração de rubis mais importantes do mundo. Os rubis de Moçambique são conhecidos pela sua qualidade excecional e tornaram-se peças cobiçadas nos mercados internacionais de gemas preciosas.
No entanto, precisam compreender a dualidade económica profunda que caracteriza Cabo Delgado. Enquanto estes megaprojetos de gás e mineração operam como enclaves económicos de alta tecnologia, gerando milhares de milhões de dólares em receitas, a vasta maioria da população local continua a viver de pesca de subsistência ao longo da costa ou de agricultura de pequena escala no interior. Existe uma desconexão quase total entre estas duas realidades económicas. Os megaprojetos empregam relativamente poucas pessoas locais, geralmente apenas em posições de nível inferior, enquanto os empregos especializados e bem remunerados são ocupados por trabalhadores trazidos de outras partes de Moçambique ou do estrangeiro. Esta situação criou tensões sociais que contribuíram para a instabilidade de segurança que tem afligido a província nos últimos anos.
Movendo-nos para sul ao longo da costa norte, chegamos à província de Nampula, que apresenta um perfil económico bem diferente de Cabo Delgado. Nampula é a província mais populosa de Moçambique, e esta demografia por si só faz dela um centro económico importante. A província contribui aproximadamente catorze a dezasseis por cento do Produto Interno Bruto nacional, tornando-a a segunda maior economia provincial depois de Maputo. A localização geográfica de Nampula, que já estudaram anteriormente, confere-lhe uma vantagem estratégica imensa. A província abriga a Baía de Nacala, que como já aprenderam, é um dos melhores portos naturais de águas profundas em toda a costa oriental africana.
O Porto de Nacala não serve apenas Nampula ou mesmo apenas Moçambique. Ele é o ponto focal do chamado Corredor de Desenvolvimento de Nacala, uma rede integrada de infraestruturas de transporte que conecta a costa moçambicana com o interior profundo da África Austral, especialmente o Maláui e partes da Zâmbia. Imaginem uma linha ferroviária moderna que começa no porto de águas profundas em Nacala e se estende centenas de quilómetros para o interior, atravessando Nampula, passando pelo Niassa e eventualmente cruzando a fronteira para o Maláui. Ao longo desta linha ferroviária, produtos agrícolas, minerais e bens manufaturados movem-se em ambas as direções. O Maláui, que é um país completamente encravado sem acesso ao mar, depende criticamente desta ligação para exportar os seus produtos e importar tudo o que precisa. Esta posição como porta de entrada logística confere a Nampula uma importância económica que vai muito além das suas próprias atividades produtivas.
Mas Nampula não é apenas um corredor de trânsito. A província é também um gigante agrícola por direito próprio. Nampula é o líder nacional na produção de castanha de caju e algodão, duas culturas de rendimento extremamente importantes para a economia moçambicana. A castanha de caju, aquele fruto pequeno e curvado que se tornou um petisco popular em todo o mundo, cresce em árvores que prosperam no clima tropical de Nampula. Moçambique tem uma longa história de produção de caju, e durante algum tempo foi um dos principais exportadores mundiais. Embora a posição relativa do país tenha diminuído devido à competição de outros produtores, o caju continua a ser uma fonte de rendimento crucial para centenas de milhares de famílias rurais em Nampula. O algodão, a fibra natural usada para fazer tecidos, é outra cultura importante, embora os agricultores enfrentem desafios de preços flutuantes e custos de produção.
Nampula também abriga a mina de areias pesadas de Moma, uma operação de mineração massiva que extrai minerais de titânio das dunas costeiras. O titânio e os seus compostos têm aplicações industriais importantes, desde a fabricação de pigmentos brancos usados em tintas e plásticos até à produção de ligas metálicas de alta resistência usadas na indústria aeroespacial. A mina de Moma representa um investimento de centenas de milhões de dólares e é um dos principais projetos de mineração de Moçambique.
A província do Niassa, a mais setentrional e mais remota de Moçambique, apresenta um perfil económico que contrasta fortemente com os seus vizinhos costeiros. Historicamente, o Niassa tem contribuído apenas cerca de cinco a seis por cento para o PIB nacional, uma das contribuições mais baixas de qualquer província. Esta situação reflete em grande parte o isolamento geográfico da província, que já exploraram quando estudaram a topografia. O Niassa situa-se no telhado montanhoso do país, separado da costa por centenas de quilómetros de terreno acidentado e, até há relativamente pouco tempo, com conexões de transporte extremamente deficientes com o resto de Moçambique.
No entanto, o Niassa está a emergir como o que os economistas chamam de fronteira agrária, uma região onde existe vasto potencial para expansão da agricultura comercial devido à disponibilidade de terras, água e condições climáticas favoráveis. O clima tropical de altitude do Niassa, com as suas temperaturas moderadas e chuvas confiáveis, cria condições excelentes para certas culturas. A província tornou-se o coração do setor florestal de Moçambique, com vastas plantações de pinheiro e eucalipto que fornecem madeira para construção, produção de papel e outras indústrias. O Niassa é também um produtor importante de soja, uma leguminosa rica em proteínas e óleos que se tornou uma das culturas agrícolas mais comercializadas globalmente, utilizada tanto para alimentação animal quanto humana. O tabaco e o algodão são outras culturas comerciais significativas.
O grande desafio económico do Niassa tem sido sempre a logística. De que adianta produzir soja, madeira ou tabaco se não há maneira económica de transportar estes produtos para os mercados? A construção da ligação ferroviária do Niassa ao Porto de Nacala foi um desenvolvimento transformador, oferecendo finalmente aos produtores da província acesso a um porto de águas profundas capaz de exportar os seus produtos para mercados internacionais. À medida que esta infraestrutura se consolida e expande, espera-se que a contribuição económica do Niassa cresça significativamente nas próximas décadas.
O Centro: A Espinha Dorsal Industrial e Energética
À medida que nos movemos para as províncias centrais de Moçambique, entramos naquela que é verdadeiramente a espinha dorsal industrial e energética do país. Esta região não é apenas economicamente importante para Moçambique, mas desempenha um papel estratégico para toda a região da África Austral, servindo como a principal porta de entrada logística para países encravados como o Zimbabué, o Maláui e a Zâmbia. A geografia física desta região, que já estudaram em detalhe, explica muito da sua importância económica.
A província de Tete merece o título de capital energética de Moçambique, e quando compreenderem porque, entenderão como a geografia física se traduz diretamente em poder económico. Tete contribui aproximadamente dez a doze por cento do PIB nacional, o que é notável para uma província que, em termos populacionais, não é das maiores. Esta contribuição económica desproporcional é impulsionada por duas indústrias principais: a mineração de carvão e a geração hidroelétrica.
Lembrando o que já aprenderam sobre a hidrografia de Moçambique, o Rio Zambeze atravessa Tete por quinhentos quilómetros, e é aqui que foi construída a Barragem de Cahora Bassa, criando aquele vasto mar interior de dois mil e setecentos quilómetros quadrados. Esta barragem não é apenas uma estrutura impressionante de engenharia, mas representa a maior fonte individual de geração de eletricidade em toda a região da África Austral. As turbinas instaladas em Cahora Bassa têm uma capacidade de geração de mais de dois mil megawatts, o suficiente para alimentar milhões de lares e indústrias. A eletricidade gerada aqui não serve apenas Moçambique, mas é exportada em grandes quantidades para a África do Sul, o Zimbabué e outros países vizinhos, gerando receitas significativas em divisas estrangeiras para o Estado moçambicano.
Mas a história energética de Tete não termina com a hidroeletricidade. A província também abriga algumas das maiores reservas de carvão de África, concentradas principalmente na região de Moatize. O carvão é uma rocha sedimentar combustível que se formou ao longo de milhões de anos a partir da compressão e aquecimento de matéria vegetal morta. Embora o carvão seja cada vez mais visto como problemático do ponto de vista ambiental devido às suas emissões de carbono quando queimado, continua a ser um combustível crucial para a geração de eletricidade e para processos industriais em muitos países, especialmente na Ásia. O carvão de Moatize é de alta qualidade, classificado como carvão metalúrgico ou carvão de coque, que é especialmente valioso porque é usado na produção de aço.
A indústria do carvão em Tete representa investimentos de milhares de milhões de dólares por empresas multinacionais. O carvão é extraído em minas gigantescas a céu aberto, carregado em comboios especiais e transportado através do chamado Corredor de Nacala até ao Porto de Nacala, onde é embarcado em navios graneleiros enormes que o levam principalmente para a Índia e outros mercados asiáticos. Nos anos de pico, Tete exportou milhões de toneladas de carvão, tornando-se um dos principais fornecedores globais. No entanto, precisam compreender que esta indústria enfrenta desafios significativos. Os preços globais do carvão flutuam dramaticamente dependendo da procura mundial, e quando os preços caem, as operações em Tete tornam-se menos rentáveis ou mesmo não viáveis. Além disso, existem preocupações ambientais e sociais relacionadas com a mineração, incluindo deslocação de comunidades, poluição de água e ar, e questões sobre quão equitativamente os benefícios económicos são distribuídos.
Apesar da importância económica da mineração e da hidroeletricidade, a agricultura continua a ser o maior empregador em Tete, com a maioria da população dependendo de cultivos de subsistência ou culturas de rendimento como o tabaco. Esta dualidade económica, onde megaprojetos coexistem com agricultura de pequena escala, é uma característica que se repete em muitas províncias moçambicanas.
A província de Sofala é frequentemente chamada de coração logístico de Moçambique, e esta designação não é exagerada. A economia de Sofala gira quase inteiramente em torno do Porto de Beira e do Corredor da Beira, que é uma das ligações de transporte mais importantes de toda a África Austral. Para compreenderem a importância estratégica de Sofala, precisam pensar novamente em geografia. O Zimbabué, um país com uma população de milhões de pessoas e uma economia relativamente diversificada, não tem acesso ao mar. A sua saída mais natural e historicamente mais usada para o oceano é através de Moçambique, especificamente através de Sofala.
O Porto de Beira, situado no delta dos rios Púnguè e Búzi que já estudaram, serve como o principal ponto de importação e exportação para o Zimbabué. Produtos manufaturados, alimentos, combustíveis e outros bens chegam a Beira por navio e são depois transportados por ferrovia ou estrada para o Zimbabué. Na direção oposta, produtos zimbabueanos como tabaco, minerais e produtos agrícolas chegam a Beira para exportação. Esta função de porta de entrada gera receitas substanciais para Sofala através de taxas portuárias, serviços de transporte, armazenamento, processamento aduaneiro e toda uma cadeia de serviços associados.
Para além da sua função logística, Sofala tem também atividades produtivas próprias importantes. A província é um centro de agricultura comercial, especialmente a produção de açúcar. O açúcar é cultivado em vastas plantações em localidades como Mafambisse e Marromeu, processado em fábricas locais e depois exportado ou vendido no mercado doméstico. A costa de Sofala, especificamente o Banco de Sofala que já conhecem, é uma zona de pesca industrial de camarão extremamente produtiva. O camarão moçambicano é apreciado nos mercados internacionais, particularmente na Europa e Ásia, e a sua pesca gera receitas de exportação significativas.
No entanto, como já aprenderam quando estudaram o clima e a vulnerabilidade de Sofala a ciclones, a economia desta província enfrenta perturbações constantes devido a desastres naturais. Ciclones podem danificar ou destruir infraestruturas portuárias, interromper o comércio durante semanas, destruir plantações de açúcar e devastar comunidades pesqueiras. A recuperação após estes eventos é dispendiosa e demorada, representando um desafio económico contínuo para a província.
A província de Manica ocupa uma posição estratégica no Corredor da Beira, situando-se entre o Porto de Beira e a fronteira com o Zimbabué. Esta localização, combinada com o clima favorável das suas terras altas que já exploraram, fez de Manica um líder na agricultura de exportação. As terras altas de Manica, especialmente em torno da cidade de Chimoio e nas áreas montanhosas perto da fronteira, têm condições climáticas que são ideais para culturas de alto valor que não prosperam nas planícies tropicais quentes.
Manica tornou-se um produtor importante de macadâmia, aquela noz cremosa e rica que se tornou extremamente popular nos mercados internacionais e comanda preços elevados. As árvores de macadâmia adaptam-se bem ao clima subtropical das terras altas, e vastas plantações foram estabelecidas na província. O abacate, a citrinos como laranjas e limões, e o tabaco são outras culturas de exportação significativas. A proximidade de Manica ao Corredor da Beira significa que estes produtos podem ser transportados relativamente rapidamente e economicamente para o porto, facilitando a exportação.
Para além da agricultura, Manica também tem um setor de mineração de ouro em desenvolvimento e uma base industrial emergente na cidade de Chimoio, que é um dos principais centros urbanos do centro de Moçambique. A cidade serve como um nó de comércio e serviços, ligando as áreas rurais produtoras da província aos mercados urbanos e internacionais.
A província da Zambézia apresenta um paradoxo económico que ilustra os desafios do desenvolvimento em Moçambique. Apesar de ser a quarta maior economia provincial em termos de contribuição para o PIB, a Zambézia enfrenta níveis de pobreza que estão entre os mais altos do país. Esta contradição entre atividade económica mensurável e bem-estar da população reflete questões de distribuição de riqueza, deficits de infraestruturas e a natureza dual da economia que já discutimos.
A economia da Zambézia assenta em alguns pilares principais. As terras altas de Gurué, onde o Monte Namúli se ergue e onde as chuvas excedem os dois mil milímetros por ano como já aprenderam, são o centro da produção de chá de Moçambique. O chá é uma cultura que requer condições específicas: altitude elevada, temperaturas moderadas, chuvas abundantes e bem distribuídas, e solos ácidos. As terras altas de Gurué proporcionam todas estas condições. As plantações de chá aqui são extensas, e o chá da Zambézia é exportado para mercados internacionais. A província é também um produtor importante de coco, com vastas áreas de coqueiros ao longo da costa, e abriga operações de mineração de areias pesadas semelhantes às de Nampula.
Geograficamente, a Zambézia serve como um ponto de trânsito crucial entre o norte e o centro do país, mas esta função potencial é prejudicada por deficits significativos de infraestruturas. As estradas são frequentemente deficientes, pontes são inadequadas ou inexistentes, e durante a estação chuvosa muitas áreas tornam-se praticamente inacessíveis. Esta falta de infraestruturas não apenas dificulta o movimento de pessoas e bens, mas também limita o desenvolvimento económico ao tornar difícil para os produtores locais acederem a mercados maiores.
O Sul: Indústria, Finanças e Serviços
À medida que viajamos para as províncias do sul de Moçambique, entramos na região economicamente mais diversificada do país, aquela que abriga não apenas as indústrias pesadas e os serviços financeiros mais sofisticados, mas também a capital nacional e o principal centro urbano, Maputo. Esta região beneficia de várias vantagens: proximidade à África do Sul, a economia mais desenvolvida e industrializada da região, infraestruturas de transporte relativamente melhores do que no resto do país, e concentração de capital humano qualificado e instituições educativas.
A província de Inhambane apresenta uma economia impulsionada por dois setores principais que parecem, à primeira vista, quase contraditórios: a extração de gás natural e o turismo de luxo. Mas quando compreendemos a geografia da província, vemos como ambos coexistem. O gás natural de Inhambane é extraído em terra, não ao largo como em Cabo Delgado, especificamente nos campos de Pande e Temane operados pela empresa sul-africana Sasol. Este gás é processado localmente e depois transportado por gasoduto até à África do Sul, onde alimenta indústrias e centrais elétricas. Parte do gás também é usado dentro de Moçambique para geração de eletricidade, tornando Inhambane um contribuidor importante para a segurança energética nacional.
O turismo em Inhambane concentra-se principalmente na região de Vilankulo e no Arquipélago de Bazaruto, que já conheceram quando estudaram a costa de Moçambique. Bazaruto tornou-se uma marca global de turismo de luxo, atraindo visitantes ricos de todo o mundo que procuram praias pristinas, águas cristalinas perfeitas para mergulho, e experiências exclusivas em resorts de alta gama. Este tipo de turismo gera receitas significativas em divisas estrangeiras e cria empregos, embora muitas vezes os benefícios não se distribuam amplamente pelas comunidades locais, permanecendo concentrados nos operadores turísticos e nos trabalhadores diretamente empregados nos resorts.
A província de Gaza apresenta uma história económica de transformação. Historicamente, Gaza foi vista principalmente como o celeiro do sul, fornecendo arroz e gado para alimentar a crescente cidade de Maputo. A agricultura continua importante, com o vale do Limpopo oferecendo terras férteis que podem, quando adequadamente irrigadas, produzir colheitas abundantes. No entanto, a economia de Gaza foi transformada pela descoberta e desenvolvimento do projeto de areias pesadas de Chibuto, que abriga um dos maiores depósitos de titânio do mundo. Este megaprojeto de mineração representa investimentos massivos e, quando plenamente operacional, poderá gerar receitas de exportação substanciais para décadas.
Existe também um aspeto menos visível mas economicamente significativo da economia de Gaza: as remessas de trabalhadores migrantes. Durante grande parte do século vinte e continuando até hoje, milhares de homens de Gaza atravessaram a fronteira para trabalhar nas minas de ouro e outros setores da economia sul-africana. O dinheiro que estes trabalhadores enviam de volta para as suas famílias em Gaza representa uma fonte de rendimento crucial para muitas comunidades, embora este fenómeno também tenha consequências sociais, com famílias separadas por longos períodos e comunidades onde os homens estão frequentemente ausentes.
A província de Maputo, excluindo a cidade capital de Maputo que é tecnicamente uma unidade administrativa separada, tem o PIB per capita mais alto de qualquer província moçambicana. Esta prosperidade relativa é impulsionada pela concentração de indústria pesada e infraestruturas de exportação. O símbolo mais visível desta industrialização é a Mozal, a fundição de alumínio que é a maior empresa industrial de Moçambique. Para compreenderem a Mozal, precisam entender o que é uma fundição de alumínio e porque existe em Moçambique.
O alumínio é um metal extremamente útil, leve mas forte, resistente à corrosão, e usado em tudo, desde latas de refrigerante até fuselagens de aviões. No entanto, o alumínio não existe naturalmente em forma metálica, mas sim combinado com oxigénio num mineral chamado bauxite. Transformar bauxite em alumínio metálico requer enormes quantidades de eletricidade, tornando a disponibilidade de energia barata um fator crítico na localização de fundições de alumínio. A Mozal está localizada em Moçambique principalmente porque pode importar eletricidade relativamente barata da Barragem de Cahora Bassa em Tete e da África do Sul. A bauxite é importada de outros países, processada na Mozal, e o alumínio resultante é exportado para mercados globais.
A província de Maputo também abriga o Parque Industrial de Beluluane, uma zona especial criada para atrair investimento industrial oferecendo infraestruturas melhoradas, incentivos fiscais e proximidade ao Porto de Maputo. A província funciona como a principal zona industrial e de exportação do país, beneficiando do corredor de transporte bem desenvolvido que a liga à África do Sul, permitindo não apenas a exportação de produtos moçambicanos mas também servindo como ponto de trânsito para bens que se movem entre o interior da África Austral e o oceano.
Compreendendo os Padrões e Vulnerabilidades Económicas
Quando damos um passo atrás e olhamos para a economia de Moçambique como um todo, certos padrões e vulnerabilidades tornam-se claros. Primeiro, há uma clara diferenciação regional nas bases económicas. O norte está a emergir como um centro de recursos extractivos, especialmente gás e minerais, combinado com agricultura de exportação e funções logísticas. O centro funciona como a espinha dorsal energética e industrial, dominado pelo carvão, hidroeletricidade, e corredores de transporte. O sul é o mais diversificado, com indústria pesada, serviços financeiros, turismo e gás.
Segundo, a economia moçambicana enfrenta vulnerabilidades significativas que vocês, como futuros cidadãos informados, precisam compreender. As alterações climáticas representam uma ameaça crescente, especialmente para as economias costeiras de Sofala, Nampula e Inhambane, que são constantemente perturbadas por ciclones cada vez mais intensos. Gaza e outras regiões do interior sul enfrentam ciclos de secas que ameaçam a agricultura e a segurança alimentar.
A economia é também fortemente dependente de preços voláteis de commodities globais. Quando os preços do carvão, gás ou alumínio caem nos mercados internacionais, as receitas de exportação de Moçambique caem dramaticamente, afetando as finanças do Estado e o investimento. Esta dependência de procura externa torna o país vulnerável a choques económicos sobre os quais tem pouco controle.
Finalmente, existe uma disparidade marcante nas infraestruturas. Os corredores de transporte que ligam os portos moçambicanos ao interior, corredores de leste para oeste como o de Beira, Nacala e Maputo, são relativamente bem desenvolvidos porque servem funções de exportação e trânsito internacional que geram receitas. No entanto, a conectividade interna de norte a sul permanece frágil, dificultando a integração económica nacional e limitando o potencial para comércio e cooperação entre as diferentes regiões de Moçambique. Quando estudam a economia de Moçambique, estão na verdade a estudar como a geografia física, os recursos naturais, a história, e os sistemas políticos interagem para criar padrões de produção, comércio e prosperidade que moldam profundamente a vida de todos os moçambicanos.